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Rosa Mecânica

por Flávio Gonçalves, em 31.10.20

Ontem descobri a Rosa Mecânica, sejam bem-vindos à luta para recordar o PS de que também é um partido de esquerda. Como fã da Laranja Mecânica acho o nome absolutamente genial, tem surgido um número cada vez maior de podcasts e páginas de esquerda - mas muito poucas ousam situar-se na área do PS (e por experiência nestes três anos com a Libertária, garanto que a recepção interna não é das melhores). Estou extremamente animado com este projecto que considero complementar em vez de rival. Há vozes de esquerda no PS, e esperemos que sejam cada vez mais.

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Multilateralismo unipolar?

por Flávio Gonçalves, em 15.09.20

Recebi um comunicado de imprensa de uma das organizações afectas à Internacional Socialista e ao Partido Socialista Europeu para tradução e divulgação e sinto um misto de desilusão e frustração, sob o título de "Por Um Novo Multilateralismo" temos vários oradores europeus atlantistas, anti-Venezuela, anti-China e anti-Rússia culminando num discurso de Neera Tanden do centrista, belicista e intervencionista Center for American Progress. Digam-me lá, que multilaterismo há ali? Provavelmente a defesa de uma maior inclusão de tropas europeias nas guerras criadas pelos EUA...

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Estudos superiores como vocação

por Flávio Gonçalves, em 27.08.20

Sou de uma geração que assistiu à transição entre seguir uma carreira universitária por vocação vs escolher o curso cuja saída inclui ordenados mais altos, contudo notei que fora deste debate ficaram outras razões pelas quais as pessoas optam por cursos universitários, no meu caso pessoal as duas licenciaturas que iniciei acabaram por ser seguidas mais por interesse político e militância dos meus tempos de juventude: numa primeira hora ingressei em História por considerar a dita formação como uma mais valia que casava o interesse que tinha pela mesma com a perspectiva de uma carreira como investigador e autor em paralelo à de activista político.

À medida que fui evoluindo e os meus interesses resvalaram mais para a geopolítica e como as relações entre as nações afectam mais as políticas nacionais que quaisquer episódios da História dessas próprias nações ou continentes onde se inserem, transferi-me para Estudos Europeus tendo em vista uma carreira diplomática e, uma vez mais, a perspectiva de uma carreira como investigador e autor em paralelo à de activista político. Excusado será dizer que não completei nenhuma das licenciaturas, pese embora toda a pressão familiar e até partidária para tal. Por mais interessante que fosse os dados que desvendava ao estudar as cadeiras destas licenciaturas, não me davam ânimo a querer estudar e tornaram-se numa rotina semelhante à de um emprego, que temos por necessidade e não por gosto.

A verdade é que desde muito novo já escrevia pequenos relatos e histórias no telex da empresa do meu pai, tive o meu primeiro texto de não-ficção publicado num jornal teria eu 12 ou 13 anos, devorava o extinto semanário "Expresso das Nove" ao ponto do comercial do jornal me oferecer uma assinatura anual, sempre que o meu pai ia ao estrangeiro em trabalho pedia-lhe que me trouxesse jornais dos países por onde passava, cresci a ler as aventuras do Pato Donald como jornalista do "A Patada" e as aventuras de jornalistas fictícios como Spirou, Tintim e depois Clark Kent (Super-Homem) e até Peter Parker (Homem-Aranha, fotógrafo num jornal), estive na fundação da rádio da minha escola secundária e na refundação do jornal académico "O Arauto", com meros 14 anos editava fanzines com uma máquina de escrever, recortes, uma régua com letras de forma e letras decalcáveis, devorava obras de jornalismo de investigação...

Enquanto perdia o tempo a frustrar-me nas licenciaturas de História e depois Estudos Europeus, em paralelo fiz parte da redacção de um semanário durante 6 anos, cheguei a colaborar duas vezes na extinta "Focus"... ainda hoje escrevo em revistas e jornais, tanto digitais como em papel, saltava e salta à vista que a minha vocação era e é o jornalismo, contudo só me ocorreu uma única vez tirar a licenciatura de jornalismo, na altura em conversa com um jornalista do "Tal&Qual" sobre se devia mudar de História para Jornalismo, este constatou que em Portugal "são duas maneiras distintas de morrer de fome", visto que cá tanto a pesquisa histórica como o jornalismo de investigação não são valorizados, não despertam interesse popular nem atraem qualquer aposta por parte das universidades, Estado e órgãos de comunicação social.

Verdade seja dita que comecei a escrever em jornais aos 12 ou 13 anos, continuo a escrever aos 41 anos... e ao longo destas décadas os poucos jornalistas licenciados que conheci foram os estágios curriculares não remunerados que passaram pelas mesmas redacções que eu, e nunca ficavam pois todos os anos as universidades regurgitam mais jornalistas do que qualquer televisão, jornal ou revista conseguem absorver e mesmo estes preferem 'criadores de conteúdos' que saibam traduzir uma ou mais línguas e ainda formatar imagens do que propriamente jornalistas.

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Memória política jornalística precisa-se!

por Flávio Gonçalves, em 15.08.20

Sei que não é muito comum escreverem-se obras sobre jornais, talvez por serem realidades curtas e sem interesse académico/comercial, mas gostava de ler a história de jornais como "A Luta", "Notícias da Amadora", "República" à esquerda e até os "O Diabo", "A Rua" e "O Dia" à direita. Sempre me chocou a falta de memória quase militante que se cultiva na história da política portuguesa e que, digo eu, contribuiu em muito para a actual falta de ideologia nos partidos do centrão e falta de pragmatismo e realismo nos ditos anti-sistema.

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Manual de interpretação flaviana

por Flávio Gonçalves, em 02.08.20

Há décadas que há sempre um dilema quando alguém quer debater os conteúdos dos meus textos, alguns são contraditórios se não nos guiarmos por uma lógica simples:

1 - tenho textos ideológicos sobre como acho que a sociedade devia ser (adoptando um novo sistema de sociedade);

2 - tenho textos onde abordo políticas menos utópicas onde escrevo sobre como a sociedade pode ser se forem adoptadas outras políticas (ainda dentro do actual sistema de sociedade);

3 - tenho abordagens diferentes na análise política partidária nacional e na internacional, a tal me obriga a tradição portuguesa da falsificação ideológica onde um partido conservador-liberal diz que é social-democrata, o social-democrata diz que é socialista, e etc.

Resumindo: o mundo que eu quero é socialista e eco-libertário e provavelmente nunca existirá; o mundo em que vivemos seria muito melhor JÁ aplicando políticas socialistas democráticas;

Acredito que a Europa só será viável como federação com um "Estado" Social Europeu com Senado, Exército e uma política económica comum que inclua um Ordenado Mínimo Europeu, tal conseguirá eliminar as diferenças Norte/Sul e libertar-nos da geopolítica dos EUA ou da Rússia. Sou bastante pragmático quanto ao mundo que é possível JÁ alterando algumas políticas europeias ou nacionais e apoiando um mundo anti-imperialista e multipolar e utópico no mundo que acredito que será adoptado no futuro da Humanidade.

Post Scriptum: estou em total desacordo que os anarquistas não possam militar em partidos com ou sem correntes internas ou até criar partidos próprios, ao longo da História tal sempre foi o caso.

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A defesa numa sociedade sem Estado

por Flávio Gonçalves, em 27.07.20

Uma semana antes de escrever este artigo, escrevi outro onde defendia que deviamos pricatizar a polícia. Quando as pessoas ouviram isso, pensaram na ideia anarco-capitalismo com o mesmo nome. A diferente entre essa e a minha é monumental.

A ideia AnCap é que as comunidades ou, mais provavelmente, as empresas contratem uma força policial semelhante à que já temos. Iriam manter as ruas livres de crime. O problema é que esta dita polícia seria também utilizada para colectar rendas e proibir ocupações. Iriam desempenhar praticamente as mesmas funções que a polícia estatal, com o senão de serem financiadas pelo privado. Esta polícia não seria tão simpática para as pessoas nas ruas e, sendo os tribunais privados, as pessoas com as quais interagissem seriam condenadas a penas injustamente longas.

A ideia que apresento, pelo contrário, é uma na qual indivíduos contratam um grupo para proteger a sua propriedade pessoal (incluindo a sua pessoa e a sua família) dos criminosos. Estes trabalhadores da segurança iriam proteger os frutos do nosso trabalho quando não estivéssemos presentes. Os negócios de rua (e cooperativas) poderiam também contratar uma agência de defesa deste tipo.

A diferença entre estas duas abordagens é melhor ilustrada se compararamos dois intelectuais que abordarem esta questão. Por um lado, a ideia rothbardiana de uma polícia privatizada que imagina uma força polícial semelhante à versão estatal. Por outro, as agências de defesa privada tuckerianas, que defendem a nossa propriedade pessoal sem estarem ligadas a empresas ou outras forças de maior dimensão. Uma daria lugar a um Estado fascista enquanto que a outra não.

Uma sociedade na aqual as empresas pudessem criar as suas próprias leis estaria aberta a que uma empresa pudesse comprar todas as outras e criar o seu próprio Estado autoritário. Em contraste com uma sociedade anarquista individualista, uma sociedade AnCap não teria criada uma infraestrutura através da qual as pessoas pudessem adquirir os fundos necessários para criar os seus próprios negócios, levando a uma situação na qual algumas pessoas não conseguissem ser produtores associados, e seriam por sua vez escravos do ordenado. 

Em alternativa, a única lei para governar uma sociedade anarquista individualista é o que Lysander Spooner apodou de lei natural. Essa lei é conhecida pelas crianças, pelos homens e pelas mulhares, era conhecida pelos povos ancestrais, e será também do conhecimento dos povos do futuro. Tem dez palavras. "Um indivíduo não irá violar a propriedade de outro indivíduo."

Esta lei natural seria a única lei numa sociedade anarquista individualista. Seria a lei pela qual as agências de defesa privada se regeriam e a lei seguida pelas pessoas. Criminaliza as acções que violem os direitos à propriedade pessoal que apodo de Seis Crimes. São eles fogo posto, agressão, homicídio, estupro, pedofília e roubo. A pena com uma única excepção seria a indemnização e a restituição. Os homicidas (incluindo os que tensassem assassinar) seriam enviados para uma prisão comunitária financiada por via de um imposto voluntário, caso fossem considerados culpados após defesa por parte do seu advogado. Um júri do tribunal comunitário (financiado também por um imposto voluntário) decidiria o nível da indemnização e a restituição para crimes que não o de homicídio após a audiência.

A agência de defesa privada seria semelhante ao da ADT actual. Através de uma assinatura mensal, receberiamos uma placa para colocarmos no quintal a informar os potenciais criminosos de que a nossa casa está a ser protegida por uma dos poucos milhares de empresas de segurança. Teriam também um contacto de emergência para o qual os assinantes poderiam telefonar gratuitamente e os não-assinantes pagando uma pequena taxa. A concorrência entre tantas firmas reduziriam o preço das assinaturas e das taxas e aumentaria a qualidade do serviço. Não matariam uma vez que tal afectaria o valor das assinaturas e aumentaria também os custos do seu seguro.

Há outro substituto para a polícia que poderiamos apodar de "vigilantes". Os vigilantes patrulhariam as ruas, preveneriam o crime, e defenderiam a propriedade pessoal da comunidade local. Seriam compostos por cidadãos locais, financiados por intermédio de donativos (o que os obrigadia a providenciar um serviço de alta qualidade), e a pertença seria sujeita a voto por parte da comunidade local. Tal evitaria a entrada de quaisquer maçãs podres. Caso um racista se quisesse inscrever, a comunidade teria poder de veto.

Uma sociedade anarquista continuaria a ter quem nos defendesse e não seria uma confusão caótica. Teria uma baixa criminalidade e não teria que lidar com a chacina das minorias pela qual enveredou o bando de criminosos que temos o azar de apodar de nossa força policial. O livre mercado asseguraria a qualidade e os baixos preços, e uma indústria de defesa de livre mercado iria providenciar a protecção de qualidade de topo que merecemos.

Dakota Hensley

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Evocando o reverendo eco-libertário

por Flávio Gonçalves, em 25.07.20

Estou a ler uma reportagem sobre umas das últimas acções de rua de John Papworth em 2006, já com 85 anos, contra a utilização do automóvel em contexto urbano. Este bom velhinho era uma das minhas inspirações eco-libertárias na altura. A imagem de um reverendo avôzinho, assembleiano (no sentido político, não no evangélico), localista, a protestar e a oferecer café e omeletes ao entrevistador até me humedeceu a vista, recordo que na altura ainda tentamos revitalizar a revista "Fourth World Review" entrevistando até o popular Billy Bragg, mas não pegou.

John Papworth conviveu com HG Wells e Bertrand Russel, foi tudo de comunista a sem-abrigo culminando em eco-localista, fundou as revistas ambientalistas "The Ecologist" e "Resurgenge", que vivem agora como uma única entidade. E merece que eu lhe escreva um obituário digno, faleceu no passado dia 4 de Julho com 98 anos.

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As estátuas também se abatem?

por Flávio Gonçalves, em 27.06.20

Embora me tenha pronunciado nas redes sociais (coisa fácil, pois por norma são textos curtos com algumas centenas de caracteres), não tinha conseguido ainda organizar dois ou três parágrafos sobre este tema. Tinha-me identificado com a rábula do Ricardo Araújo Pereira há um par de semanas, que foi considerada hostil por parte da esquerda identitária (ou histérica, na minha perspectiva) que chegaram a compará-lo ao Ben Shapiro, mas agora creio que tudo o que eu teria a dizer se encontra muito bem condensado nesta conversa de 90 minutos entre José Neves e Daniel Oliveira, aconselho a que escutem.

Perguntar Não Ofende · José Neves: As estátuas também se abatem?

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Desgarrada parlamentar

por Flávio Gonçalves, em 08.06.20

Nunca encontrei um termo que definisse bem o meu desencanto para com os debates políticos da actualidade, seja nas assembleias de freguesia, municipais ou na nacional... assisti a parte do último debate quinzenal e já sei exactamente como descrever os mesmos: desgarradas!!! Não há troca de ideias nem afirmação de ideais, é um ritual de cantares ao desafio onde cada equipa tenta humilhar e desacreditar a outra. Há inclusive apupos e aplausos, como nas desgarradas em casas de fado. Os debates políticos em Portugal são puras desgarradas!

Definição: "Nos cantares ao desafio, durante largos minutos, são abordados os temas como escárnio e maldizer, amor e ódio, fé e caridade, improvisando as rimas e respondendo, preferencialmente de forma jocosa, ao outro cantador".

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Impasses ao meu ciclismo:

por Flávio Gonçalves, em 03.06.20

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a) uma vizinha insuportável das que julga ser dona no prédio que conseguiu proibir as bicicletas na despensa do condomínio no r/c. Sempre que a utilizo, tenho que a levar às costas até ao sótão no 4º andar numa escada apertada.

b) a bicicleta foi feita para transportar pessoas até 100kg, os meus actuais 140kg irão acabar por partir ou fazer explodir ali alguma coisa.

c) a maior parte dos ciclistas são pessoas mais intolerantes, egoistas e insuportáveis que os veganazis militantes. Sinto zero empatia e até alguma hostilidade em fazer parte da tribo.

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O Autor


Colaborador da edição portuguesa do Pravda.ru, tradutor, editor da Libertaria.pt, autarca e político a tempo parcial, socialista a tempo inteiro, membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono, activista do Conselho Português para a Paz e Cooperação, açoriano e muitas outras coisas. Escrevo sobre comida, livros, música e outras irrelevâncias culturais no Livros à Mesa. Encontram-me em língua inglesa no Autarkies. Endereço para envios promocionais (livros, revistas, zines, etc.): Flávio Gonçalves, Apartado 6019, EC Bairro Novo, 2701-801 Amadora

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